Antônio Fagundes vive vítima de violência em 'Se eu fechar os olhos agora': 'Impressão é que o Brasil anda para trás'

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Postado em: 18 / 04 / 2019 [01:34 am]

 
 
Antônio Fagundes passou um tempo fora das telas, mas não descansou: rodou dois anos e três países com sua peça "Baixa Terapia", produziu um filme e assistiu a muita coisa.
 
Neste ano, estará em dose dupla na Globo:
-Como um homem misterioso, vítima de violência na minissérie "Se eu fechar os olhos agora", que estreou nesta semana
-Como um milionário à beira da morte na próxima novela das 19h, "Bom Sucesso"
 
Ao G1, ator falou sobre a força da TV aberta brasileira, a persistência de preconceitos no país e a formação machista do homem brasileiro.
 
G1 - Como foi a construção deste personagem na série, que é uma vítima da ditadura de Vargas?
 
Essa história é muito bonita e importante porque fala de um Brasil da década de 1960, na pré-ditadura mas que já tinha passado por uma. Tem problema que a gente achava que tinha ficado na década de 1960, mas a impressão é de sermos um país que anda para trás, em direção aos seus eternos problemas.
 
Esta é uma série que fala de preconceitos e violências que ainda existem. Já deviam ter sido superados, mas não conseguimos por uma incapacidade que não sei de onde vem. Meu personagem será o fio condutor dessa história e essas análises. E formará um trio de detetives interessante com os dois meninos.
 
G1 - Você trabalhou principalmente com atores mirins. Como foi isso?
 
Antônio Fagundes - Foi muito gostoso, eu vou ter a chance de fazer isso outra vez, vou ter uma netinha na novela, a Valentina, uma graça de menina, atriz completa também. Mas os dois são muito empenhados, muito juntos dentro da história, atentos e disciplinados. A gente percebe uma geração nova boa.
 
Eu acredito que experiência não se transfere. O que pode acontecer é perceber no outro alguma coisa que você possa usar e aí você usa. Nunca tive, nem com os filhos, a postura de quem sabe mais. É possível que eu tenha aprendido com eles mais do que eles comigo.
 
G1 - Você falou recentemente sobre a relação entre TV aberta brasileira e a fechada americana. Como vê o futuro da televisão no Brasil?
 
"Temos que prestar atenção em não andar para trás, negando o valor que a TV aberta ainda tem no país. Ela surgiu no Brasil e adquiriu força no vácuo de uma cultura que não privilegia a leitura, o cinema. Ela preencheu muito bem isso. Temos uma teledramaturgia de alto nível, ocupamos seis horas da programação diária, formou uma consciência nacional."
emos um número de espectadores no Brasil que "Game of Thrones" não tem no mundo inteiro. Eles não atingem 30 milhões [na estreia da última temporada, foram 17,4 milhões]. Uma novela atinge facilmente 40 milhões só no Brasil. E ainda exportamos, mesmo que não seja tão forte quanto a exportação de produtos americanos.
 
Temos muita força, por que imitar o que eles estão fazendo? Eles é que morrem de vontade de ter um alcance como o nosso.
 
G1 - De certa forma, essas séries mais 'rebuscadas' e densas se aproximam das séries americanas que ganharam o streaming. É uma forma de se aproximar dos novos espectadores?
 
Antônio Fagundes - Não se procura fazer uma coisa mais densa. O que buscamos é uma boa história, se for densa, ótimo. É como em teatro, as pessoas costumam perguntar por que escolhi um determinado tema para a minha peça. Elas acreditam que o sucesso vem do tema.
 
Nós achamos que vem da história. Têm várias outras com o mesmo tema e que não foram bem. O que faz a diferença são bons textos, que sejam importantes de ser discutidos naquele momento.
 
G1 - O que você tem assistido para se inspirar?
 
Antônio Fagundes - Eu sou louco, assisto a muita coisa. Os últimos que vi foram "Hanna", "Homecoming" inteiro, "Dix pour cent", "Coisa mais linda", "A maldição da residência Hill". Isso no último mês. Assisto porque eu gosto, mas claro que acabo tirando uma ou outra coisa.
 
Há pouco tempo vi uma série islandesa e uma finlandesa. Eu vejo que o mundo inteiro está contando ótimas histórias. Mas estão buscando agora o que dominamos como ninguém, que são histórias de longo curso. Mesmo que façam 10 episódios, tentam conter um núcleo central forte pra se fazer querer ver. Nós fazermos isso com 200 capítulos, o público não sai de casa.
 
G1 - Assistindo a tanta produção de fora, tem vontade de fazer algum trabalho internacional?
 
Antônio Fagundes - Não, eu tenho muita coisa para fazer no Brasil, muito espectador que não conseguimos pegar. E não é lá fora que vamos fazer isso.
 
G1 - Você falou no 'Encontro' sobre uma criação estrutural com valores machistas no Brasil. Acha que a imagem de 'machão' associada a você por conta de alguns personagens é reflexo dessa estrutura?
 
Antônio Fagundes - Eu fiz personagens muito delicados, o próprio Cacá, em "Dancin' Days", me deu uma enorme projeção, foi quando eu realmente explodi, era um personagem extremamente delicado, um diplomata com problemas com a família.
 
Frequentava o psicanalista, não tinha nada dessa imagem machista. Teve Otávio Jordão ["A Viagem"], um gentleman. O Atílio ["Por amor"], de Manoel Carlos, que vai voltar agora.
 
"Mas essa é a formação do homem brasileiro. Somos formados todos, inclusive você, nesse sistema. E estamos regredindo porque queremos que ensinem nossos filhos que menino tem que vestir azul e menina, rosa. Ainda hoje!"
 
G1 - Seu último trabalho na TV havia sido em 2017, na minissérie 'Dois irmãos'. O que te fez passar esses dois anos fora da TV?
 
Antônio Fagundes - "Velho Chico" (2016) consumiu muito tempo, foi uma novela difficile de ser gravada. Depois de pouco tempo, comecei a gravar "Se eu fechar os olhos agora" e me consumiu cinco meses, foi um processo intenso. Passei dois anos fazendo teatro e agora finalmente me envolvi com as gravações da próxima novela ["Bom sucesso", próximo folhetim das 19h].
 
G1 - Você gravou no Carnaval. Pode contar um pouco sobre a preparação de "Bom sucesso"?
 
Antônio Fagundes - Ainda estamos na fase de leitura. É mais uma discussão dos personagens ainda.
 
G1 - Tem planos para o cinema este ano? Ou mais uma produção no teatro?
 
Antônio Fagundes - Minha peça ["Baixa Terapia"] está em cartaz no Tuca, em São Paulo. Teve 200 mil espectadores, fizemos uma excursão pelo Brasil, Estados Unidos e Portugal. E vamos permanecer até o final do ano em São Paulo, estamos lotando.
 
Sobre o cinema, produzi um filme no ano passado, "Contra a parede", que já está em algumas plataformas de streaming.
 
G1 - Nos anos 90 você já era um ator consagrado na Globo e fez trabalhos na TV Cultura, como 'Mundo da Lua'. Respirar outros ares pode fazer bem?
 
Antônio Fagundes - "Mundo da lua" foi uma das últimas coisas que fiz lá, tinha feito muita coisa antes: Telecurso segundo grau, teatro, um programa de auditório na década de 1980. A Globo me deu sempre autorização pra fazer devido ao caráter estatal da TV Cultura, não era um competidor comercial. Eles permitiam e eu agradeci sempre, é uma experiência importante que as pessoas façam. Quando eu fiz, foi muito bom para mim. "Mundo da Lua" passa até hoje.
 
G1 - Pensa em fazer de novo?
 
Antônio Fagundes - Não faço porque não tem. Se a TV Cultura me chamasse e fosse um projeto bom, eu estaria lá com o maior prazer. Vai haver uma comemoração de 50 anos e vou aparecer por lá.
 
Fonte: G1