'Sai de Baixo' do cinema estreia tão politicamente incorreto quanto na TV

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Postado em: 22 / 02 / 2019 [01:47 am]

 
 
Uma Magda levemente empoderada, mas ainda burra. Um Caco Antibes com as piadas de sempre sobre pobres e quem mais passar por seu caminho. Tiradas com os próprios atores e os risos impossíveis de serem segurados em cena. Pouca coisa mudou desde a série de TV "Sai de baixo", nos anos 1990, e o filme inspirado nela, que estreou nesta quinta-feira (21).
 
Ao G1, Miguel Falabella, criador e intérprete do Caco, diz que não teve um cuidado especial com o tom das piadas na era do humor politicamente correto.
 
"Não tem como mudar o Caco. Ele é o que é: esse cara que não tem noção de onde ele vive, porque ele não tem onde cair morto, mas se acha. Não há politicamente correto que enquadre alguém como Caco Antistes. Até porque ele acha coisa pobre", explica.
 
"O Caco traduz esse delírio nacional, da classe média brasileira que se crê superior. Ele é um bosta, não tem um tostão, mas acredita ser um príncipe dinamarquês. Para mim é muito legal fazer esse tipo de personagem que não tem freio."
 
Para Marisa Orth, a Magda, o escrachamento dos personagens é uma crítica social, não apologia. "Humor é uma ferramenta crítica absoluta. Achar que o Caco Antibes e a Magda são para fazer propaganda de gente como Caco e Magda é um raciocínio curto", diz a atriz.
 
"O que eu vejo hoje são as pessoas mirando e matando o bobo da corte e não o rei. É óbvio que a Magda é uma crítica a essa mulher burra, gostosa, que não faz nada, de saia curta e que está com o marido que rouba, mas ela não rouba gente, ela não sabe de onde vem o dinheiro", contesta Marisa.
 
Do teatro para o cinema
Falabella reescreveu o roteiro do filme por três vezes. "Eu tinha todo um roteiro inicial pronto que acabou não acontecendo. Márcia Cabrita faleceu, Luis Gustavo ficou doente e gravou uma participação especial em um dia e Aracy fechou um contrato com três diárias! Três diárias! Uma loucura! Eu até brinco com isso no filme", conta.
 
No filme, os atores se dirigem ao público por diversas vezes e não têm medo de rir de si próprios. As piadas com os três dias de trabalho da atriz Aracy Balabanian realmente estão lá. Assim como cutucadas à "precariedade" do cinema nacional.
 
O elenco teve quatro semanas para gravar o filme. Com as alterações de roteiro e o tempo apertado, optaram pelo improviso. "No final, a gente improvisou e amarrou o que tinha, igual a gente fazia no programa", diz Falabella.
 
A única exigência era que a história se mantivesse popular. "Apesar das alterações, o resultado final foi uma chanchada, como o programa sempre foi”, explica o ator.
 
Na história, Caco sai da cadeia e encontra a família falida. Para não perder o apartamento, todos caem na estrada para traficar diamantes. No caminho, um tenta passar a perna no outro e o resto é história.
 
"É um longa bem punk, o tempo todo o sujo falando do mal lavado. É selvagem. Todos tentando roubar um ao outro, mostra muito do país que vivemos. Mas não há a intenção de fazer um filme de denúncia", conta Marisa.
 
Sai de zorra
Três humoristas se juntam ao elenco da série: Lúcio Mauro Filho, Cacau Protásio e Katiuscia Canoro. O trio vem de programas de humor populares como "Zorra Total", "Casseta e Planeta" e "Vai que cola".
 
A mudança de personagens e de cenário, alinhados à um roteiro que desfoca da história da família, tiram "Sai de baixo" do lugar confortável que ocupou por anos: a sala do apartamento com personagens, entrando, saindo e segurando a história com improviso e boas sacadas.
 
O filme, dirigido por Cris D'Amato, se aproxima de outras produções de comédia popular brasileiras dos últimos anos, como "Os farofeiros" e "Os parças".
 
Fonte: G1